Quando a nutrição sustenta o sistema

A nutrição raramente ocupa o centro do debate em saúde. Ela costuma ser tratada como variável de comportamento individual, escolha pessoal ou complemento terapêutico. Esse enquadramento é confortável, mas insuficiente. Em sistemas de saúde complexos, a nutrição funciona como infraestrutura invisível: quando falha, todo o sistema se torna mais caro, mais sobrecarregado e menos eficaz.

Grande parte da pressão sobre hospitais e serviços especializados nasce antes do primeiro atendimento. Doenças crônicas associadas à alimentação inadequada não surgem de eventos isolados, mas de padrões sustentados ao longo do tempo. O sistema responde com tecnologia, medicamentos e procedimentos, mas raramente atua de forma consistente sobre a base que alimenta essa demanda.

Quando a nutrição é tratada como infraestrutura, o olhar muda. Ela deixa de ser apenas prescrição e passa a ser planejamento. Planejamento de políticas públicas, de atenção primária, de educação em saúde e de articulação interprofissional. Sistemas que incorporam a nutrição como eixo estruturante reduzem internações evitáveis, uso excessivo de medicamentos e procedimentos de alto custo.

Há também um impacto econômico direto. Alimentação inadequada gera custos difusos: absenteísmo, perda de produtividade, aposentadorias precoces e aumento do gasto público. Esses custos não aparecem nos prontuários, mas aparecem nos orçamentos. Tratar a nutrição como infraestrutura é reconhecer que decisões alimentares, em escala populacional, afetam a sustentabilidade financeira do sistema de saúde.

O desafio não é técnico. O conhecimento científico sobre nutrição é amplo. O problema é institucional. A nutrição segue frequentemente isolada em programas paralelos, enquanto o cuidado clínico avança desconectado dos determinantes alimentares. Quando isso acontece, o sistema trata sintomas com sofisticação crescente — e causas com atenção insuficiente.

A atenção primária é o ponto-chave dessa infraestrutura. É ali que padrões alimentares podem ser acompanhados ao longo do tempo, respeitando território, cultura e condições socioeconômicas. Nutrição estruturante não é moralizante nem genérica; é pragmática e contínua. Ela exige financiamento estável, indicadores claros e integração com outras políticas sociais.

Há ainda uma dimensão institucional pouco discutida. Infraestrutura pressupõe permanência. Nutrição não pode depender apenas de campanhas ou iniciativas pontuais. Precisa ser incorporada como política de longo prazo, com governança, monitoramento e responsabilidade compartilhada entre áreas.

Quando a nutrição falha como base, o sistema compensa com soluções caras e reativas. Funciona, mas a um custo crescente. Quando a nutrição sustenta o sistema, o cuidado ganha fôlego. Menos pressão, mais previsibilidade e melhores resultados coletivos.

Infraestrutura invisível não é acessório. É o que mantém o sistema de pé.