Grandes eventos esportivos costumam ser anunciados com entusiasmo. Prometem desenvolvimento urbano, geração de empregos e visibilidade internacional. Mas, passado o brilho das cerimônias de abertura e encerramento, surge a pergunta incômoda: o que fica? O verdadeiro jogo começa quando as luzes se apagam — e a resposta define se o evento foi um marco de progresso ou apenas um espetáculo passageiro.
O conceito de legado vai muito além da infraestrutura física. Está em políticas públicas duradouras, em novas práticas de gestão, em transformação social e ambiental. Um estádio moderno é importante, mas será inútil se não for integrado ao cotidiano da cidade. Uma vila olímpica impressiona, mas perde o sentido se não se tornar habitação, escola ou centro de treinamento. O desafio é transformar o extraordinário em permanente.
O Brasil conhece bem essa lição. As experiências recentes com grandes eventos — da Copa do Mundo às Olimpíadas — deixaram legados ambíguos. De um lado, avanços pontuais em mobilidade, turismo e visibilidade internacional. De outro, obras inacabadas, custos elevados e oportunidades perdidas. Faltou planejamento de longo prazo e, sobretudo, gestão sustentável.
Sustentabilidade, nesse contexto, significa planejamento integrado. Cada investimento precisa ser pensado para o “depois”. Qual o uso dos equipamentos? Quem os manterá? De que forma a população se beneficia? Sem respostas claras, o legado se transforma em ônus. E o custo não é apenas financeiro: é simbólico. Quando a população sente que o evento serviu a poucos, a confiança nas instituições se deteriora.
A sustentabilidade também passa pela governança. Grandes eventos movimentam bilhões e envolvem uma complexa rede de contratos. A transparência deve ser absoluta. Auditorias independentes, prestação de contas pública e mecanismos de controle social são fundamentais para evitar desperdícios e irregularidades. O fair play administrativo é tão importante quanto o esportivo.
O meio ambiente é outro eixo essencial. Obras sustentáveis, compensações de carbono, gestão de resíduos e reaproveitamento de materiais são práticas que precisam deixar de ser exceção. Eventos esportivos são vitrines mundiais: cada decisão é observada e avaliada. Um evento sustentável inspira políticas urbanas mais responsáveis e mostra que o esporte pode ser vetor de transformação ecológica.
Mas o legado mais poderoso é humano. São os programas de formação, os projetos sociais e as oportunidades que surgem quando o esporte é integrado à cidade. A Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, por exemplo, despertaram uma geração de voluntários, treinadores e gestores que continuam atuando em projetos de base. Esse é o tipo de herança que não se mede em concreto, mas em consciência.
Empresas que participam de grandes eventos também têm responsabilidade. Patrocinar não é apenas expor uma marca, mas associá-la a valores. Apoiar a inclusão, a diversidade e a sustentabilidade deve ser parte da estratégia. Quando o investimento corporativo é planejado de forma ética e integrada, o legado se multiplica.
O poder público, por sua vez, precisa aprender a transformar eventos em políticas. As estruturas criadas, os estudos realizados e as experiências acumuladas devem ser reutilizados. O conhecimento institucional gerado em cada grande evento é ativo público e deve ser preservado. Recomeçar do zero a cada projeto é desperdiçar tempo, dinheiro e aprendizado.
Por fim, é necessário resgatar o sentido coletivo do esporte. Um evento esportivo não é um fim em si mesmo, mas um meio de fortalecer comunidades, estimular práticas saudáveis e inspirar valores. O verdadeiro sucesso não está na quantidade de turistas, mas na qualidade do impacto.
O jogo que começa depois do evento é o mais importante — e o mais difícil. Ele exige continuidade, transparência e compromisso. Quando o espetáculo termina e o investimento permanece útil, o legado é real. Quando a cidade segue mais consciente, o esporte cumpre seu papel civilizatório. Esse é o campeonato que vale a pena vencer.

