Formação esportiva e educação: o talento não basta

Todo grande atleta começa da mesma forma: com uma descoberta. Um professor, um técnico ou um familiar percebe um talento, uma habilidade diferente, uma energia fora do comum. Mas o que transforma essa aptidão em trajetória é muito mais do que técnica — é formação. E formação, no sentido mais amplo, significa educação, valores e propósito. O talento, por si só, não basta.

No Brasil, a relação entre esporte e educação ainda é tratada como uma equação incompleta. A escola vê o esporte muitas vezes como atividade complementar, recreativa. Já o esporte de rendimento tende a se distanciar do ambiente escolar, priorizando resultados e competições. Essa separação é um equívoco. As duas dimensões deveriam caminhar juntas: o esporte como instrumento de aprendizado e a educação como base para o desenvolvimento esportivo.

Em países com alto desempenho esportivo e social, a integração entre escola e esporte é política de Estado. O ambiente escolar é o primeiro laboratório de formação de talentos — mas também de cidadãos. É ali que se aprende a conviver, a lidar com regras, a trabalhar em grupo e a respeitar o outro. A prática esportiva é uma das ferramentas mais eficazes para desenvolver competências socioemocionais, como empatia, resiliência e autocontrole.

No Brasil, há exemplos inspiradores. Escolas públicas e privadas que inserem o esporte como parte do currículo, e não apenas como atividade extracurricular, colhem resultados expressivos em engajamento, disciplina e rendimento acadêmico. O aluno que se dedica ao treino aprende também a planejar, a gerenciar o tempo e a lidar com frustrações — habilidades essenciais para a vida adulta.

Mas ainda faltam estrutura e continuidade. Quadras deterioradas, falta de equipamentos e professores sobrecarregados tornam o ensino esportivo um desafio. Para mudar esse cenário, é preciso políticas públicas consistentes, que valorizem a educação física como área estratégica de formação. O professor de educação física deve ser visto não apenas como instrutor, mas como agente de transformação social.

Outra dimensão importante é a transição do esporte escolar para o esporte profissional. Muitos jovens talentosos abandonam os estudos em busca de uma carreira incerta. Quando não conseguem seguir adiante, ficam sem diploma e sem perspectiva. Esse é um problema de política pública e também de cultura esportiva. É preciso criar mecanismos que permitam a formação dual — acadêmica e esportiva — como ocorre em diversos países.

O papel das federações e clubes também é crucial. Programas de base devem incluir acompanhamento escolar obrigatório, apoio psicológico e orientação de carreira. O atleta em formação precisa entender que o esporte é uma escola de vida, e que a carreira esportiva, por mais brilhante, é limitada no tempo. Garantir que ele saia preparado para o “pós-quadra” é responsabilidade compartilhada entre instituições e gestores.

As universidades, por sua vez, podem atuar como pontes entre esporte e pesquisa. Estudos sobre treinamento, nutrição, gestão e pedagogia do esporte ajudam a profissionalizar o setor e gerar políticas mais eficazes. O conhecimento acadêmico não deve ficar isolado nas bibliotecas: deve chegar às arenas, aos ginásios e às comunidades.

Por fim, é preciso resgatar o sentido educativo do esporte. Em um mundo obcecado por resultados, o processo formativo se perde. Vencer é importante, mas aprender a vencer — e a perder — é o que forma o caráter. O esporte ensina disciplina, respeito, coletividade e persistência. Esses valores são tão valiosos quanto qualquer medalha.

Formar atletas é importante. Formar cidadãos é indispensável. O talento pode abrir portas, mas apenas a educação garante que elas permaneçam abertas.