A Justiça só cumpre seu papel quando é confiável. Não basta que tribunais existam, que juízes sejam concursados ou que processos tramitem regularmente. Se a sociedade não acredita que as decisões são justas, imparciais e acessíveis, o sistema perde legitimidade. Recuperar a credibilidade da Justiça, em um contexto de polarização e desinformação, é um dos maiores desafios institucionais do nosso tempo.
A confiança social é um bem intangível, mas essencial. Sem ela, cidadãos deixam de recorrer ao sistema, preferindo resolver conflitos por meios informais ou até violentos. Empresas perdem segurança jurídica para investir, e a democracia se fragiliza. A crise de confiança na Justiça, portanto, não é apenas problema jurídico: é ameaça à coesão social e ao desenvolvimento econômico.
Muitos fatores alimentam essa desconfiança. A morosidade processual é o mais evidente. Processos que duram anos ou décadas transmitem a sensação de que a Justiça nunca chega. Outro ponto é a percepção de seletividade: casos envolvendo poderosos ou influentes parecem tramitar em ritmo diferente daqueles de cidadãos comuns. A linguagem excessivamente técnica também afasta a população, que não se vê capaz de compreender as decisões.
Mas talvez o maior problema seja a falta de transparência. Quando decisões são mal fundamentadas ou pouco explicadas, criam-se espaços para suspeitas de parcialidade. A Justiça deve se lembrar de que não se dirige apenas às partes do processo, mas a toda a sociedade. Cada sentença é, ao mesmo tempo, um ato jurídico e um ato de comunicação pública.
Como recuperar a confiança? O primeiro passo é investir em transparência ativa. Publicar decisões de forma clara, com linguagem acessível, e abrir dados sobre o funcionamento dos tribunais são medidas que aproximam o sistema da sociedade. O segundo passo é fortalecer a imparcialidade, com regras claras de impedimento e mecanismos que coíbam interferências externas. O terceiro é acelerar processos, por meio de inovação tecnológica, mas sem esquecer da inclusão digital para que ninguém seja deixado para trás.
Além disso, é preciso estimular métodos alternativos de resolução de conflitos, como mediação e conciliação. Quanto mais cidadãos perceberem que seus problemas são resolvidos de forma rápida e justa, maior será a confiança no sistema. A cultura do litígio precisa dar lugar à cultura da solução.
A confiança também depende de proximidade. Programas de educação para a cidadania, projetos de aproximação com comunidades e abertura dos tribunais para o diálogo público são estratégias que humanizam a Justiça. Um sistema distante, visto apenas como burocracia estatal, dificilmente conquista respeito.
No fim, credibilidade não se decreta: se conquista. A Justiça deve ser exemplo de integridade, clareza e eficiência. Só assim poderá reconquistar a confiança da sociedade e reafirmar seu papel como guardiã dos direitos e garantias fundamentais.


