Ativos públicos costumam ser discutidos em termos de custo, não de valor. Orçamento, manutenção, despesa e contingenciamento dominam o debate. Raramente se pergunta o que esses ativos poderiam gerar se fossem tratados com lógica econômica, governança adequada e horizonte de longo prazo. O resultado é um paradoxo recorrente: o Estado detém um volume expressivo de ativos — materiais e imateriais — e, ainda assim, opera como se fosse estruturalmente pobre.
O desperdício não ocorre apenas quando um ativo é abandonado ou sucateado. Ele ocorre, com mais frequência, quando o ativo existe, mas é subutilizado. Imóveis vazios, terrenos mal localizados do ponto de vista estratégico, equipamentos sem integração operacional, dados públicos fragmentados e capital humano mal alocado são exemplos cotidianos de valor que não se converte em benefício coletivo.
Parte do problema está no enquadramento jurídico e administrativo. Ativos públicos são cercados por camadas de proteção — muitas delas necessárias — que acabam desestimulando qualquer uso inteligente. O medo de errar, de ser responsabilizado ou de “criar problema” gera paralisia decisória. O ativo fica protegido contra o uso indevido, mas também contra o uso produtivo.
Outro fator relevante é a ausência de visão patrimonial integrada. Ativos são geridos de forma compartimentalizada, por órgãos diferentes, sem estratégia comum. Cada área cuida do “seu” patrimônio, mas ninguém cuida do conjunto. Sem coordenação, perde-se escala, sinergia e capacidade de planejamento. O ativo público vira uma coleção de itens, não uma carteira estratégica.
O desperdício também é humano. O setor público concentra capital humano altamente qualificado, com conhecimento técnico e experiência institucional acumulada. Quando esse ativo não é valorizado por estruturas de decisão claras, incentivos adequados e continuidade de projetos, ele se deteriora. A rotatividade política e a descontinuidade administrativa corroem memória institucional e reduzem capacidade de execução.
Há ainda os ativos imateriais. Dados públicos são um exemplo emblemático. Informações produzidas com recursos públicos frequentemente permanecem subutilizadas, mal organizadas ou inacessíveis. Quando bem tratados, dados públicos podem orientar políticas, melhorar serviços e reduzir custos. Quando negligenciados, representam investimento desperdiçado e oportunidade perdida.
É importante notar que desperdício não significa má-fé. Na maioria dos casos, ele nasce de desenho institucional inadequado. Regras criadas para evitar abuso acabam inviabilizando uso legítimo. Controles pensados para proteger o patrimônio geram rigidez excessiva. A ausência de critérios claros para uso produtivo empurra gestores para a inação, que é a decisão mais segura — e a mais cara no longo prazo.
Tratar ativos públicos como ativos exige mudança de mentalidade. Exige reconhecer que patrimônio público não é apenas algo a ser defendido, mas algo a ser administrado com responsabilidade econômica e social. Isso não implica privatização automática nem exploração indiscriminada. Implica planejamento, governança e avaliação de impacto.
Ativos públicos bem geridos reduzem pressão orçamentária. Imóveis utilizados de forma inteligente podem gerar receita ou serviços. Dados bem organizados melhoram políticas e reduzem desperdício. Capital humano valorizado aumenta eficiência administrativa. Tudo isso fortalece o Estado sem aumentar carga tributária.
Há também um ganho institucional. Quando o poder público demonstra capacidade de gerir seus ativos com método, ele aumenta credibilidade. Credibilidade reduz custo de transação, atrai parcerias e amplia margem de manobra. O contrário também é verdadeiro: ativos desperdiçados sinalizam fragilidade institucional.
O desafio não é trivial. Exige revisão de regras, clareza de responsabilidades e coragem decisória. Exige aceitar que não usar também é uma escolha — e uma escolha cara. O desperdício dos ativos públicos não é apenas problema contábil; é problema de governança.
No fim, um Estado que não sabe usar o que já tem dificilmente conseguirá justificar pedir mais. Ativos públicos existem para servir ao interesse coletivo. Quando permanecem parados, o custo não é invisível. Ele aparece em serviços piores, oportunidades perdidas e confiança erodida. Valor público desperdiçado é valor social que nunca chega a existir.


