Em democracias maduras, governar não é apenas ouvir, dialogar ou mediar conflitos. Governar é, sobretudo, decidir. A decisão é o ato que transforma debate em ação e intenção em política pública. Quando ela não acontece, o custo não é neutro: a omissão também governa — e quase sempre governa mal.
Nos últimos anos, tornou-se comum confundir prudência com paralisia. O receio de errar, de desagradar grupos ou de assumir ônus políticos levou muitas instituições a adiar escolhas relevantes. O resultado é um vácuo decisório que corrói a confiança pública. Quando decisões deixam de ser tomadas, o sistema não entra em modo de espera: ele se degrada.
A omissão institucional tem efeitos concretos. Projetos permanecem indefinidos, políticas públicas se tornam erráticas, normas perdem eficácia e conflitos se acumulam. Em vez de previsibilidade, instala-se a incerteza. Em vez de segurança institucional, surge a sensação de improviso permanente. A democracia não é ameaçada apenas por abusos de poder, mas também pela incapacidade de exercê-lo com responsabilidade.
Decidir não significa agir de forma autoritária ou precipitada. Significa assumir que o processo decisório tem um fim. O debate é essencial, mas não infinito. Audiências públicas, consultas e comissões existem para qualificar a decisão — não para substituí-la indefinidamente. Quando o diálogo vira álibi para a inação, a governança perde sentido.
Há também um custo econômico associado à omissão. Investimentos são adiados, contratos não se concretizam e oportunidades se perdem quando o ambiente institucional transmite indecisão. Empresas e cidadãos precisam de regras claras e de decisões estáveis para planejar. A ausência de decisão é, na prática, uma forma de instabilidade regulatória.
Outro efeito pouco discutido é o impacto simbólico. Instituições que não decidem enfraquecem sua autoridade. Quando lideranças evitam assumir posições, transmitem a ideia de que qualquer decisão é ilegítima ou provisória. Isso abre espaço para soluções informais, disputas paralelas e perda de confiança no processo democrático. O vazio institucional tende a ser ocupado por ruído, não por consenso.
Governar é aceitar que toda decisão envolve custos e benefícios. Não existe decisão perfeita, apenas decisões responsáveis dentro de um contexto real. A maturidade institucional está justamente na capacidade de escolher, justificar e sustentar escolhas — inclusive revendo-as quando necessário, de forma transparente. A revisão é sinal de inteligência institucional; a omissão, de fragilidade.
É preciso distinguir cautela de medo. A cautela melhora decisões; o medo paralisa. Instituições fortes criam mecanismos para decidir melhor, não para decidir menos. Planejamento, dados, avaliação de impacto e controle social são instrumentos para reduzir riscos — não desculpas para evitar escolhas.
Em ambientes colegiados, esse desafio é ainda maior. A pluralidade de vozes é riqueza democrática, mas exige liderança institucional capaz de conduzir o processo até a deliberação final. Sem isso, Conselhos e Comissões se transformam em arenas de adiamento permanente. A governança colegiada só funciona quando há método, prazos e responsabilidade decisória.
No fim, a omissão cobra um preço alto e silencioso. Ela não gera manchetes imediatas, mas produz erosão contínua da confiança pública. Democracias não fracassam apenas por decisões ruins — fracassam também por decisões que nunca chegam a ser tomadas.
Governar é decidir porque decidir é assumir responsabilidade. E a responsabilidade é o que diferencia instituições vivas de estruturas apenas formais. A democracia não exige líderes infalíveis, mas exige líderes capazes de escolher, explicar e sustentar decisões. A alternativa é deixar que a inércia governe — e ela nunca governa bem.



