O Brasil vive um momento em que a confiança nas instituições e o senso de responsabilidade coletiva precisam ser reconstruídos. Esse desafio não é apenas político ou estatal — é também empresarial. As empresas, como atores centrais da economia e da vida social, têm papel estratégico na consolidação de um país mais estável, ético e próspero. A reconstrução institucional passa, necessariamente, por uma nova relação entre negócios e sociedade.
Durante muito tempo, o setor privado enxergou o Estado apenas como regulador ou obstáculo. De outro lado, o poder público via as empresas como fonte de arrecadação ou como suspeitas de abuso. Esse antagonismo histórico enfraqueceu o país. Hoje, diante de crises globais, desigualdades persistentes e exigências ambientais crescentes, é hora de construir uma parceria baseada em governança, transparência e valor público.
Governança empresarial é o ponto de partida. Trata-se do conjunto de práticas que garante que decisões corporativas sejam tomadas com ética, eficiência e responsabilidade. Mas, num país em reconstrução, governança precisa ir além da conformidade legal. Ela deve refletir compromisso com o interesse público, integrando objetivos econômicos e sociais. Empresas sólidas não apenas geram lucro — geram confiança.
A credibilidade do setor privado é um ativo nacional. Cada empresa que adota padrões elevados de integridade, paga tributos corretamente e respeita seus colaboradores contribui para um ambiente de negócios mais previsível e competitivo. E previsibilidade é o que atrai investimento, reduz desigualdades regionais e gera estabilidade. Governança não é custo: é política pública indireta.
Essa visão de valor público amplia o papel das empresas. Elas deixam de ser apenas agentes econômicos e se tornam coautoras do desenvolvimento. Investir em inovação, educação profissional, sustentabilidade e diversidade é investir na infraestrutura social do país. Quando uma organização adota práticas responsáveis, ela melhora o entorno — e o entorno melhora o país.
A reconstrução institucional também depende de um novo pacto ético entre o público e o privado. A corrupção, que por décadas corroeu a confiança, só será superada quando empresas e governos passarem a atuar sob princípios comuns de transparência e prestação de contas. Isso implica diálogo constante, contratos claros e um compromisso de longo prazo com o bem coletivo.
Outro elemento essencial é o papel das lideranças empresariais. Dirigentes e conselheiros não podem mais se limitar à gestão interna. Precisam assumir protagonismo no debate público, defender boas práticas, apoiar reformas estruturais e se posicionar com clareza em favor de princípios. O silêncio corporativo, em tempos de crise institucional, é omissão que cobra preço alto.
A governança também é instrumento de inclusão. Pequenas e médias empresas, quando capacitadas e integradas a cadeias produtivas sustentáveis, tornam-se agentes de transformação local. Políticas de compras responsáveis, parcerias regionais e investimento em qualificação criam redes de prosperidade que reduzem desigualdades.
A tecnologia amplia as possibilidades desse novo pacto. Dados abertos, blockchain e ferramentas de auditoria digital permitem rastrear processos e medir impacto com precisão. A digitalização, se bem usada, pode tornar a governança mais acessível e participativa. Transparência tecnológica é a próxima fronteira da integridade empresarial.
No fim, a reconstrução de um país não depende apenas de governos que planejam, mas de empresas que acreditam — e agem. O setor privado que entende seu papel como parte de um ecossistema público-privado mais ético e eficiente ajuda a construir uma economia baseada em confiança e propósito.
O Brasil precisa de empresas que liderem pelo exemplo. Que provem, na prática, que governança e valor público não são conceitos opostos, mas complementares. Que mostrem que crescimento e responsabilidade podem — e devem — caminhar juntos. A reconstrução começa quando o interesse coletivo volta a ser parte do plano de negócios.


